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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Intimidade


Quando sorrindo vais passando,
E toda essa gente te mira cobiçosa,
És bela - e se te não comparo à rosa,
É que a rosa, bem vês, passou de moda...

Anda-me às vezes a cabeca à roda,
Atrás de ti também, flor caprichosa!
Nem pode haver na multidão ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.

Mas é na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!

E não te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo,
Juras - mentindo - que me tens amor...


- Antero de Quental -

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Espiritualismo


"Dreaming of the Sea" by $zilla774
Fonte:DevianART




Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.


(Antero de Quental)

sábado, 28 de novembro de 2009

Noturno - Antero de Quental

Vincent Van Gogh - Noite estrelada

Me é agradável saber que Antero de Quental era meu tio-trisavô por parte de mãe e que Eric Maria Remark era meu tio-avô por parte de pai. Só não me é agradável constatar que não herdei deles, o talento para escrever! Isto posto, justifico não colocar nada de minha autoria hoje. Falta total de inspiração! Resolvi recorrer então, a um verso de Antero de Quental, do qual gosto muito:

Noturno


Espírito que passas, quando o vento

adormece no mar e surge a Lua,

filho esquivo da noite que flutua,

tu, só, entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento -

que voga e sutilmente se insinua,

sobre o meu coração que tumultua,

tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva

um instinto de luz, rompendo a treva,

buscando entre visões o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,

a febre de Ideal, que me consome,

tu, só, Gênio da Noite, e mais ninguém.


(ANTERO DE QUENTAL)

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